Halloween: o que acontece com o coração segundos após o susto?
Cardiologista explica como o medo repentino altera os batimentos e a pressão; e alerta para cuidados entre grupos de riscoFilmes de terror, fantasias, pegadinhas e brincadeiras feitas para assustar ganham espaço com a chegada do Halloween, celebrado no dia 31 de outubro. Apesar do clima de diversão, a sensação de coração disparado depois de um susto não é apenas uma expressão popular e pode, em alguns casos, trazer consequências. Em poucos segundos, o organismo realmente desencadeia uma série de alterações cardiovasculares em resposta ao medo.
Ao perceber uma ameaça, mesmo que ela dure apenas alguns instantes, o corpo libera hormônios ligados à resposta de estresse, entre eles a adrenalina. O resultado pode ser aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial e da respiração – como explica o cardiologista e ecocardiografista Dr. Jaifábio Lima. “O que acontece com o coração é principalmente um aumento da frequência dos batimentos provocado pela descarga de adrenalina na corrente sanguínea. É uma reação do organismo diante daquela situação de medo ou surpresa”, diz.
A reação já foi medida cientificamente. Em um estudo realizado por pesquisadores do Hôpital Necker–Enfants Malades, em Paris, e publicado no Journal of Hypertension, 25 voluntários foram submetidos a um estímulo sonoro repentino de 110 decibéis. No primeiro susto, a pressão arterial sistólica aumentou, em média, 18,7 mmHg, enquanto a frequência cardíaca subiu 10,8 batimentos por minuto. O pico dos batimentos ocorreu cerca de 3,4 segundos depois do estímulo; e o da pressão, em aproximadamente 5,1 segundos.
Para quem não apresenta doença cardiovascular, a tendência é que essa resposta seja temporária. “Em uma pessoa saudável, normalmente o susto é inofensivo do ponto de vista cardiovascular. Existe aquele transtorno momentâneo: o coração acelera, a frequência respiratória também aumenta, mas, passado o estímulo, o organismo tende a retornar ao seu estado habitual”, afirma o especialista.
Quem já tem problema cardíaco precisa ter mais atenção
A situação merece mais cuidado quando o coração já apresenta alguma vulnerabilidade. Segundo o cardiologista, pessoas com doença isquêmica do coração, histórico de infarto, hipertensão ou arritmias cardíacas devem ter atenção redobrada diante de situações capazes de provocar uma descarga intensa de adrenalina. Isso não significa que um susto vá necessariamente provocar um infarto ou uma arritmia grave. O risco depende da condição cardiovascular de cada pessoa, da intensidade da resposta do organismo e de outros fatores individuais.
A American Heart Association (Associação Americana do Coração) destaca que, para a maioria das pessoas, situações recreativas de medo, como filmes de terror e casas assombradas, não representam grande risco. A preocupação aumenta, porém, entre pessoas com doença cardiovascular que possa ser agravada por uma elevação súbita e importante da frequência cardíaca e da pressão. E o susto inesperado tende a produzir uma experiência diferente daquela em que a pessoa já está preparada para sentir medo.
“Quando alguém coloca um filme de terror, por exemplo, sabe que em algum momento pode levar um susto. Quando a surpresa acontece sem qualquer expectativa, a reação tende a ser mais intensa. Você é pego completamente desprevenido”, explica o médico. É o caso de pegadinhas, barulhos repentinos ou até das tradicionais festas surpresa – chamadas popularmente de “assustados” em algumas regiões –, nas quais a pessoa chega ao local sem imaginar que encontrará várias pessoas esperando para surpreendê-la.
O coração também reage ao cinema de terror
A relação entre medo e coração já chegou, inclusive, às telas dos laboratórios científicos. Um estudo publicado no The Spanish Journal of Psychology monitorou eletrocardiograma, pressão arterial e outros indicadores cardiovasculares de 32 pessoas saudáveis enquanto elas assistiam a diferentes cenas de filmes. Para provocar medo, os pesquisadores utilizaram trechos do clássico de terror “O Iluminado”. A experiência mostrou alterações mensuráveis no funcionamento cardiovascular, incluindo mudanças na resistência dos vasos sanguíneos, no débito cardíaco e na quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada batimento.
Outro trabalho, publicado pelo British Medical Journal, colocou 24 adultos jovens e saudáveis para assistir a um filme de terror e, em outro momento, a um filme educativo. Entre os participantes avaliados, o nível do fator VIII da coagulação aumentou em 57% durante o filme de terror, contra 14% durante o conteúdo educativo. O estudo, porém, não demonstrou que assistir a filmes de terror provoque trombose. Outros marcadores analisados não indicaram formação efetiva de coágulos. O resultado mostrou, sobretudo, como o medo agudo é capaz de provocar alterações fisiológicas mesmo em pessoas jovens e saudáveis.
Quando o susto deixa de ser apenas susto
Depois de uma surpresa muito intensa, é comum sentir o coração acelerado por alguns instantes. O problema é quando determinados sintomas não desaparecem ou aparecem associados ao mal-estar. “Dor no peito, sensação de palpitação que não passa ou um cansaço importante não devem ser ignorados. Se esses sintomas persistirem depois do susto, a orientação é procurar uma emergência médica para avaliação”, alerta o cardiologista.
Desmaio, falta de ar intensa e piora progressiva do desconforto também são sinais que justificam atendimento imediato. Existe ainda uma condição cardiovascular diretamente relacionada a situações de forte estresse físico ou emocional: a síndrome de Takotsubo, popularmente conhecida como “síndrome do coração partido”. “É uma situação diferente do infarto tradicional. Ela pode se apresentar de forma muito parecida, com sintomas como dor no peito e alterações no funcionamento do coração, mas geralmente não existe aquela obstrução das artérias coronárias característica do infarto. Há um comprometimento temporário da musculatura cardíaca relacionado a uma situação intensa de estresse”, explica o cardiologista.
Um dos maiores levantamentos internacionais sobre o tema analisou 1.750 pacientes com síndrome de Takotsubo. Publicado no New England Journal of Medicine, o estudo mostrou que 27,7% dos pacientes apresentavam um gatilho emocional identificado. Quase 90% dos casos analisados ocorreram em mulheres, com idade média próxima dos 67 anos. A síndrome é incomum, mas ajuda a demonstrar que emoções intensas podem ter repercussões reais sobre o coração.
Então é preciso evitar filmes de terror?
Para a maioria das pessoas saudáveis, não. O Halloween, um filme assustador ou aquela surpresa preparada pelos amigos não precisam ser vistos como inimigos do coração. O principal cuidado é conhecer a própria condição de saúde e não banalizar sintomas que ultrapassem a reação normal e passageira provocada pelo medo.
Para Jaifábio, quem já possui diagnóstico cardiovascular precisa ter atenção maior, principalmente se houver histórico de infarto, hipertensão descontrolada ou alterações do ritmo cardíaco. No fim das contas, o coração disparar durante aquela cena assustadora faz parte da reação do corpo ao medo. O alerta aparece quando ele demora a se acalmar, ou quando o susto vem acompanhado de sinais que não deveriam fazer parte da brincadeira.
Sobre o especialista
O Dr. Jaifábio Lima é médico formado pela Universidade de Marília (SP), com especialização em Cardiologia e Ecocardiografia pelo Pronto-Socorro Cardiológico Universitário de Pernambuco (Procape), no Recife, considerado o maior pronto-socorro cardiológico do Norte e Nordeste. Atualmente, atua como cardiologista e ecocardiografista na Unidade Pernambucana de Atenção Especializada (UPAE) e no Hospital Eduardo Campos, em Serra Talhada (PE), além de atender na Clínica Vidda.
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