Crônicas do Asfalto: O que a gente vê quando observa a cidade
JPCOBIROSCA
Tenho o hábito de observar as ruas. Como quem acompanha o desenrolar de uma grande história, sento-me e presto atenção nos detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos na correria do dia a dia. E, ao observar o Brasil de hoje, a sensação que me vem é a de que estamos vivendo em dois mundos paralelos.
De um lado, acompanho os noticiários, as estatísticas e as tabelas que, curiosamente, parecem mostrar uma realidade mais calma. Do outro lado, vivo o cotidiano, converso com o “Seu Zé” da barraca, ouço o relato de quem trabalha honestamente e sinto, no ar, uma insegurança que os números parecem não conseguir traduzir. É um descompasso estranho: os gráficos descem, mas o medo de quem sai para trabalhar parece subir.
Observo também um fenômeno curioso no consumo. Parece que se formou um mercado invisível, uma rede onde o preço baixo importa mais do que a origem do que se compra. É intrigante ver como as pessoas, às vezes, exibem objetos de procedência duvidosa sem se perguntar que tipo de história — ou de tragédia — existe por trás daquele produto. Quando o comprador ignora a origem de um celular ou de uma peça, ele acaba, mesmo sem querer, mantendo a engrenagem do crime girando.
Sinto, ao olhar para essa realidade, que falta uma conexão maior. Vejo policiais que, na ponta da linha, reconhecem o esforço do trabalhador, mas que parecem estar limitados por uma estrutura que nem sempre chega onde o problema realmente mora. E me questiono: até quando vamos assistir a esse abismo? Entre o político que precisa de dezenas de seguranças e o cidadão comum que conta apenas com a sua própria sorte e a coragem de tocar o seu comércio, existe um vazio.
Como alguém que apenas conta o que vê, não tenho as soluções políticas nas mãos. Mas tenho a percepção de que a história que estamos escrevendo como nação precisa de mais verdade. A gente sente falta daquela clareza de antigamente, onde os problemas eram chamados pelo nome, sem o filtro das estatísticas que tentam suavizar a dor do povo.
A minha crônica de hoje é apenas um convite para abrir os olhos. Porque, ao olhar para as ruas, o que vejo não são apenas números que caem ou sobem, mas vidas que esperam, todos os dias, por uma justiça que seja, de fato, para todos, e não apenas para quem pode pagar por ela.
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