O Paradoxo da Escassez no País da Abundância: Uma Crítica ao Modelo Econômico Brasileiro
JPCOBIROSCA
O Brasil vive hoje uma das mais profundas contradições do seu projeto de nação: somos um gigante exportador de riquezas que, paradoxalmente, empobrece o seu próprio povo no momento do consumo. A discussão que ecoa nos corredores da AMUPE e nas assembleias legislativas não é apenas sobre preços; é sobre a falência de um modelo de desenvolvimento que, ao priorizar a ambição desmedida de uma elite industrial, virou as costas para a realidade do cidadão assalariado.
Estamos diante de uma “economia de exportação” que negligencia o mercado interno. O fenômeno é nítido: o produto brasileiro atravessa oceanos, ganha a chancela do mercado internacional e retorna às nossas prateleiras com um custo final inferior ao que é praticado na origem. Esse ciclo não é apenas um erro de logística; é a prova cabal de uma política tributária e comercial que pune o brasileiro. Enquanto a indústria nacional se protege atrás de protecionismos ineficientes, o mercado estrangeiro preenche o vazio deixado pela nossa própria negligência, oferecendo ao povo o que a nossa indústria, por pura miopia ou ganância, se recusa a oferecer: o acesso.
Não se trata de advogar contra a indústria nacional, mas de questionar o seu propósito. Qual o sentido de uma estrutura produtiva que se sustenta com incentivos estatais e subsídios, mas que, no momento de servir ao mercado interno, impõe margens de lucro que corroem até 80% da renda das famílias? O que chamam de “concorrência desleal” é, na verdade, a exposição da nossa própria incompetência sistêmica. O mercado internacional apenas ocupa o espaço que o empresariado brasileiro, em sua desconexão com a realidade social, deixou vago.
A fiscalização, hoje, tornou-se um instrumento de conveniência, atuando mais como uma ferramenta de controle político do que como um órgão de equilíbrio econômico. Carecemos de uma regulação técnica, transparente e, acima de tudo, voltada ao bem comum. Onde estão os órgãos que deveriam garantir que a riqueza produzida aqui circule aqui? Onde está a responsabilidade social das grandes federações, que preferem o embate protecionista à inovação necessária para tornar o produto nacional acessível ao próprio povo?
O Brasil precisa de uma ruptura. É urgente que as equipes econômicas, o setor produtivo e o poder público sentem à mesa para encarar a verdade: o brasileiro não é um consumidor de segunda classe. O país tem condições de consumo, desde que o modelo econômico deixe de ser um entrave e passe a ser um motor. Precisamos de uma política que não veja o cidadão como um mero pagador de impostos, mas como o centro de uma engrenagem que, para ser justa, precisa ser, primeiramente, viável.
O silêncio sobre esse modelo é conivência. A mudança exige coragem para enfrentar os interesses que lucram com a desigualdade e a audácia de reconstruir um sistema onde o “Brasil para os brasileiros” não seja apenas um slogan, mas uma realidade que se traduz no preço da prateleira, na dignidade do trabalho e na justiça do mercado.
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