Escala 6 por 1: reduzir a jornada ou aumentar a renda do trabalhador?

JPCOBIROSCA

A discussão sobre a escala 6 por 1 ganhou força no Brasil, mas permanece concentrada quase exclusivamente em uma pergunta: reduzir ou não reduzir a jornada de trabalho?

A redução pode melhorar a qualidade de vida do trabalhador, que muitas vezes sai à noite e retorna pela manhã, sem tempo para a família, o descanso ou os cuidados pessoais. No entanto, é preciso reconhecer que muitos assalariados também enxergam nessa possível folga uma oportunidade de buscar outra fonte de renda.

Por isso, o debate precisa avançar. O trabalhador não necessita apenas de mais tempo: necessita também de uma remuneração capaz de sustentar sua família.

Quanto custa um empregado para a empresa?

O salário registrado não representa o custo total de um funcionário. Em uma contratação pelo regime da CLT, a empresa precisa considerar FGTS, férias, adicional de um terço, 13º salário, contribuições previdenciárias, riscos ambientais, benefícios e possíveis custos de rescisão.

Em uma estimativa sem benefícios, um trabalhador que recebe o salário mínimo de *R$ 1.621 em 2026* pode representar aproximadamente:

– *R$ 2.153 para uma empresa do Simples Nacional;
– *R$ 2.579 no Simples Nacional, Anexo IV;
– *R$ 2.691 em empresas do Lucro Presumido ou Real.

Esses valores podem aumentar com vale-transporte, alimentação, plano de saúde, uniformes, treinamentos e outras despesas. Portanto, dependendo do regime tributário e dos benefícios oferecidos, o custo real pode ficar entre 30% e 70% acima do salário bruto, ou ainda mais em determinadas situações.

Isso não significa que o empresário esteja sempre pagando impostos excessivos, nem que o trabalhador deva aceitar baixos salários. Significa que o debate precisa considerar a estrutura completa do custo do emprego formal.

Uma alternativa que contemple os dois lados

Em vez de discutir apenas a redução da escala, o Congresso e o governo poderiam avaliar uma proposta combinada:

1. reduzir encargos sobre a folha de pagamento;
2. vincular parte dessa redução ao aumento dos salários;
3. criar um reajuste gradual e real do salário mínimo;
4. oferecer tratamento especial às micro e pequenas empresas;
5. estimular novas contratações;
6. impedir que toda a economia tributária seja transformada apenas em lucro.

Uma das possibilidades seria discutir um aumento de até *30% na remuneração do trabalhador, de forma gradual e acompanhada de redução tributária para as empresas. Outra alternativa seria reduzir aproximadamente 30% dos encargos incidentes sobre a folha*, desde que essa economia fosse parcialmente repassada aos empregados.

Não se trata de afirmar que 30% seja um número definitivo ou automaticamente viável. Trata-se de apresentar uma proposta concreta para que o debate não fique limitado ao “aprova ou rejeita” a escala 6 por 1.

O trabalhador precisa de tempo e renda

É importante não presumir que todo trabalhador deseja simplesmente ficar em casa. Muitos querem continuar trabalhando, mas precisam de uma remuneração melhor. Se recebessem um salário mais digno, talvez não fossem obrigados a procurar uma segunda atividade para complementar a renda familiar.

O empresário, por sua vez, precisa de condições para manter seus funcionários, contratar mais pessoas e evitar que o aumento dos custos seja repassado integralmente aos preços.

A solução, portanto, não deve colocar trabalhadores e empresários em lados opostos. O caminho mais responsável seria discutir simultaneamente *jornada, salário, impostos e geração de empregos.

Reduzir a escala pode ser importante. Aumentar a renda também. Mas nenhuma dessas medidas será plenamente sustentável se o Brasil não enfrentar o peso dos encargos e a complexidade tributária que dificultam a contratação formal.

O trabalhador precisa de dignidade. O empresário precisa de equilíbrio. E o país precisa de uma proposta que contemple os dois.

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