O eleitor não pode ser feito de palhaço

JPCOBIROSCA

Em toda eleição, o cidadão é cercado por promessas, jingles, bandeiras, carreatas, caminhadas e discursos emocionados. Mas existe uma pergunta essencial que precisa ser feita: o eleitor está avaliando apenas o chefe do Executivo ou também está observando quem vota, aprova, rejeita e fiscaliza as decisões do governo?

Um prefeito não governa sozinho. Um projeto apresentado pela Prefeitura, muitas vezes, precisa ser analisado e aprovado pela Câmara Municipal. O mesmo acontece nos estados e na União: governadores e presidentes dependem das assembleias legislativas, da Câmara dos Deputados e do Senado para aprovar grande parte das medidas necessárias à administração pública.

Por isso, quando um governo acerta, o mérito não é apenas do prefeito, governador ou presidente. Há também a participação dos vereadores, deputados e senadores que apoiaram as medidas. Da mesma forma, quando há erros, desperdícios, omissões ou decisões prejudiciais à população, a responsabilidade não deve ser colocada somente sobre o chefe do Executivo. É preciso identificar quem apoiou, quem se omitiu e quem votou contra o interesse público.

O eleitor precisa compreender que nenhuma autoridade majoritária pode simplesmente acordar pela manhã, ter uma ideia e colocá-la em prática sem enfrentar leis, orçamento, votações e decisões dos órgãos legislativos. O Executivo propõe, mas o Legislativo debate, modifica, aprova ou rejeita. Essa relação pode ser saudável quando existe independência e fiscalização. Porém, quando se transforma em troca de favores e submissão política, quem paga a conta é o povo.

É por isso que não basta trocar o presidente e manter praticamente os mesmos deputados e senadores. Também não basta mudar o governador e conservar a mesma estrutura na Assembleia Legislativa. Nos municípios, não adianta responsabilizar apenas o prefeito se a maioria dos vereadores permanece no cargo, apoiando ou bloqueando as decisões do governo.

Essa troca parcial produz a velha política do seis por meia dúzia: muda-se uma peça, mas o sistema continua igual. O eleitor acredita que promoveu uma grande transformação, enquanto os mesmos grupos permanecem controlando as câmaras, as assembleias e o Congresso.

Não se trata de defender prefeito, governador ou presidente. Todos devem ser julgados pelos seus atos. Mas os parlamentares também precisam prestar contas. Quem votou a favor? Quem votou contra? Quem participou das discussões? Quem fiscalizou? Quem se calou? Quem esteve presente apenas para defender interesses pessoais ou partidários?

O cidadão precisa acompanhar as sessões, consultar os portais de transparência, observar as votações e conhecer a atuação dos seus representantes. A democracia não termina no dia da eleição. O voto é apenas o começo de uma responsabilidade que continua durante todo o mandato.

Nas eleições de 2026, o eleitor deve olhar para além dos discursos e das promessas. Deve analisar o histórico de cada candidato, suas alianças, seus votos, sua presença e seus resultados. Deve perguntar não apenas quem ocupou o cargo principal, mas também quem ajudou a governar, quem sustentou decisões equivocadas e quem deixou de cumprir o papel de fiscalizar.

O povo não pode continuar sendo tratado como plateia de uma disputa entre grupos políticos. Também não pode ser usado apenas para legitimar os mesmos nomes de sempre. Se deseja mudança, precisa mudar sua forma de escolher e, principalmente, sua forma de acompanhar.

O presidente não governa sozinho. O governador não governa sozinho. O prefeito não governa sozinho. E, quando há erro, a responsabilidade precisa alcançar todos os que participaram dele.

O eleitor não é palhaço, não é trouxa e não pode aceitar que sua inteligência seja desrespeitada. Mas, para não ser enganado, precisa buscar conhecimento, abandonar o julgamento superficial e compreender os caminhos do poder.

A mudança verdadeira não acontece apenas no Palácio. Ela começa nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas, na Câmara dos Deputados e no Senado. Quem deseja um Brasil melhor precisa escolher melhor todos os seus representantes e acompanhar o que eles fazem depois de eleitos.

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